Um escritor de meia idade recebe uma ligação de um estranho reportando ter encontrado sua caderneta de endereços perdida, Jean Daragane a princípio se mostra um homem irritadiço e meio grosseiro, aparentemente não tem mais interesse na caderneta, mas também não quer que ela fique com um estranho que com ela tem acesso a telefone e endereço (inclusive o seu) de diversos conhecidos, isso poderia se tornar complicado e com muito contra gosto resolve encontrar a figura enigmática que está de posse da caderneta. A partir desse encontra desencadeia-se uma complexa trama que mistura passado e presente que aos poucos vai se tonando sufocante até o ponto em que não se fica claro o que é realidade, verdade ou lembrança.

No carro, Torstel chegara até a fazer alusão à ‘casa nos arredores de Paris’ onde o tinha visto criança, a casa de Annie Astrand. Daragane passara quase um ano ali, em Saint-Leu-la-Fôret. ‘Lembro-me de um menino’, dissera Torstel. ‘Esse menino era você, eu suponho’. E Daragane lhe respondeu secamente, como se isso não lhe dissesse respeito. Foi justamente nesse domingo que ele começou a escrever No Escuro do Verão, assim que Torstel o deixou na praça de Graivisaudan.

O início do livro e focado na devolução da caderneta e na história por trás do encontro de Daragane, Gilles Ottolini e Chantal Grippay, esse ponto da história é muito esquisito, Ottolini explica que folheando a caderneta encontrou um nome de uma pessoa com quem ele precisava desesperadamente entrar em contato e que gostaria que Daragane fizesse essa ponte, este por sua vez olha aquele nome e não tem nenhuma recordação de quando e porque o colocou ali. Nesse ponto a história se torna sufocante, agoniante, pois Ottolini se torna uma especie de stalker, mas isso dura apenas o tempo necessário até que Daragane decide fazer uma investigação particular para tentar desvendar o que está por trás daquele nome.

O foco da história nunca foi a caderneta, alias o foco é a busca pela identidade, essa questão passa a ser a força motriz do personagem que avesso a tecnologia se vê obrigado a rodar as ruas de Paris e as vielas de sua memória para chegar a algum resultado.

Veio lhe à lembrança, então, uma frase do filme daquela noite, emitida por uma voz abafada antes de as luzes se reacenderem, e ele tinha a ilusão de que era ele próprio quem a pronunciava: “Que caminhos estranhos eu tive de percorrer para chegar até você.” 

Eu achei a metodologia de escrita bizarríssima, fiquei confuso nas viagens do protagonista e só me senti mais confortável na parte final, mesmo assim fiquei extremamente atraído pelo que estava lendo, o livro é um retalho de lembranças e pensamentos que se conectam, mas é preciso atenção, você junta alguns pontos da investigação de Daragane e pode tirar alguns conclusões, eu pessoalmente fiquei com várias teorias na cabeça, mas por ser um leitor assíduo de Murakami, eu já tinha enraizado que nem tudo precisa ser respondido, não houve almoço grátis.

Quase adormecendo, ouvia a voz de Annie, cada vez mais distante, e só conseguia entender um pedaço de frase: “... PARA VOCÊ NÃO SE PERDER NO BAIRRO...” Ao acordar, nesse quarto, deu-se conta de que tinham sido necessários quinze anos para que atravessasse a rua

Tudo no livro faz muito sentido no final, mas é preciso prestar atenção aos detalhes, embora seja um livro curto, ele é muito rico em nuances, provavelmente eu lerei esse livro novamente, pois é uma história que pode ser revisitada de tempos em tempos, eu acredito que tenham literaturas que envelheçam, mas particularmente eu não acho que isso aconteça com esse livro.

Fonte da Imagem: Publico PT
Patrick Modiano Nasceu em Paris em 1945, filho de um filho de um comerciante judeu e uma atriz da Flandres, cresceu com os avós mas passou boa parte da infância em um internato, a segunda guerra é um tema recorrente e o tempo, memória e busca pela identidade são temas que o autor utiliza para contar suas história que se interligam. Uma das primeiras frases ditas pelo escritor após receber o pêmio Nobel de Literatura em 2014 foi “Tenho a impressão de ter escrito um só livro, durante toda a minha vida”. (fontes: Wikipédia, Veja, listas literárias)



Para você não se perder no bairro
Patrick Modiano
Ano: 2015 / Páginas: 144
Idioma: português
Editora: Rocco
Nota ★ ★ ★ ★ ☆