Quando chega outubro a Temporada de Acidentes se inicia na Vida de Cara e sua família, durante esse período qualquer atividade simples pode se tornar um tormento para os membros dessa família, ossos se quebram, e visitas ao hospital são constantes, oportunamente qualquer coisa que pode dar errado vai dar errado nesse período.

Cara é uma adolescência com uma vida incomum, além da temporada de acidentes que por si já é uma carga, ao longo do livro Cara precisa aprender a lidar com seus sentimentos, ajudar sua irmã e entender que todos os seus irmãos e amigos tem segredos, e particularmente sua família precisa lidar com alguns desses segredos, que não são apenas besteiras adolescentes, são detalhes pesados do passado que precisam ser debatidos, e quando chegamos ao clímax esses detalhes pesam e tornam esse livro e uma preciosidade, ele tem um pouco de tudo que um bom livro precisa, tem uma boa trama, tem um dose cavalar de mistério e oculto e não entrega nada de graça. 

Acho que na página 10 eu fui obrigado a fazer um mind-map para esquematizar os personagens, são muitos e cada um tem uma característica que é marcante, foram bem trabalhados, tem personalidades fortes, e acreditem eu acreditei em cada um deles, pois ficou claro que a autora sabia o que estava fazendo. Por experiência eu sei que pessoas que passam/passaram por situações complicadas tendem a mudar e afrouxar certos hábitos e perspectivas, e os personagens do livro passam por tanta coisa que depois de pensar um pouco eu comecei a entender que qualquer coisa que fosse acontecer nas páginas seguintes não seriam estapafúrdias e a liberdade que a mãe dá a certos hábitos, não necessariamente quer dizer que ela é uma mãe ruim, e no final do livro você acaba tendo essa certeza, mas essa é minha opinião sobre como a mãe lida com os filhos, li resenhas que discordam totalmente de mim.




Durante a leitura eu senti que embora a história seja bem original e criativa algo me parecia familiar, e na parte final do livro eu me toquei que se eu não soubesse que esse livro era o primeiro romance de Moïra Fowley-Doyle, com certeza poderia ser um livro de Neil Gaiman, pois não existe um filtro do quanto a história pode evoluir, esse é um detalhe que eu particularmente adoro,, eu tenho lido alguns livros que o autor pondera sobre o impacto do que está escrevendo e pisa no freio, mas esse não tem freio, ele pode (ou não) ser um retrato dos jovens Irlandeses (o livro se passa na Irlanda), enfim é um livro honesto que tem bastante mistério, bastante coisa relacionada ao oculto, um primeiro romance que faz sentido torcer mas ficar com o pé atrás é uma amizade que realmente é uma amizade.

Tomamos o vinho no pote de geleia enquanto escutamos o uivo, e Bea começa a falar sobre os lobos da Irlanda e sobre como, há não muito tempo, as florestas cobriam toda a terra e os lobos viviam livres nelas; sobre como vagavam de costa a costa e às vezes se transformavam em seres humanos bonitos e altos que se aproximavam das vilas para seduzir os filhos dos moleiros e as filhas dos ferreiros. Esses filhos e filhas passavam uma noite com os lobos e se apaixonavam para sempre, e, quando os lobos iam embora na manhã seguinte — saíam à francesa, se transformavam em lobos novamente e se embrenhavam na floresta —, o filho do moleiro ou a filha do ferreiro passava três anos procurando-os pela floresta, descalço e trêmulo, até que morriam de exaustão ao pé de alguma árvore. Então o lobo voltava e comia a carne deles

O livro não é tão assustador quanto as pessoas pregam, mas ele é sombrio, tem toques de terror, mas não exagera, é os fantasmas que aparecem não são caricaturas, enfim, esse é um dos melhores livros que li esse ano, eu fiquei realmente satisfeito ao terminá-lo, e muito feliz por tê-lo colocado na lista.


Moïra Fowley-Doyle é uma escritora meio Irlandesa meio Francesa que mora em Dublin com o marido, sua filho e um gato, a escritora gosta de Literatura fantástica e passou boa parte dos anos na Universidade estudando literatura vampiresca. (fonte: Goodreads)

Temporada de acidentes
Moïra Fowley-Doyle
Ano: 2016 / Páginas: 256
Idioma: português
Editora: Intrínseca
Nota ★★★★★