"Você precisa me vender, Yeonmi-Ya", disse minha mae, "Por favor, quero ser vendida. Sou apenas um fardo para você".

Eu li 3 livros autobiográficos escritas por exilados políticos,  o primeiro foi " as montanhas de Buda" de Javier Moro, esse contava a trajetória de duas monjas tibetanas, que fugiram do Tibete por conta da dominação Chinesa denominada "Libertação pacífica do Tibete" se você não conhece esse livro, recomendo fortemente que tente conhecer essa história pois como ser humano acredito que você precise saber um pouco mais sobre o que acontece no mundo, o segundo livro que li foi "Eu sou Malala" escrito pela própria com junto com a jornalista Britânica Christina Lamb, provavelmente esse livro você ao menos já ouviu falar, pois ele conta a trajetória da Paquistanesa que desafiou o Talibãs e sobreviveu a um atentado que chocou o mundo e a tornou a voz que alertou o mundo sobre a forma como as crianças são tratadas no Paquistão. Hoje acabo de terminar "para poder viver" de Yeonmi Park e Maryanne Vollers.

Park Yeon-mi (ou Yeonmi Park), em coreano:박연미 (Hyesan,  4 de outubro 1993) é uma desertora e ativista de direitos humanos norte-coreana que escapou através da China em 2007 e estabeleceu-se na Coreia do Sul em 2009. Ela provém de uma família culta com conexão política que envolveu-se no mercado negro durante o colapso econômico da Coreia do Norte nos anos 90.[1]   Depois de seu pai ser enviado a um campo de trabalho forçado por causa do contrabando, sua família passou a enfrentar a fome. Então fugiram para a China onde Yeon-me e sua mãe caíram nas mãos de traficantes de seres humanos antes de conseguir escapar para a Mongólia.[2]  Agora, ela é defensora das vítimas de tráfico e trabalha pelo mundo todo em prol de promover os direitos humanos na Coreia do Norte. (Fonte Wikipedia)

Quando comecei esse livro eu já sabia que seria difícil de ler, quando digo difícil, não falo sobre aqueles livros chatos que você não consegue terminar pois a leitura é difícil, foi difícil pois eu não conseguia não me emocionar com o que eu estava lendo e por vezes eu parei de ler pois ficava sem coragem de virar a página por medo do que viria a seguir. 
Eu só tinha catorze anos, mas já havia visto toda sorte de coisas feias que as pessoas fariam para sobreviver.
O livro é dividido em 3 partes. a primeira se passa na Coreia do Norte, nesse período ela descreve sua infância, que obviamente não foi fácil, inclusive em uma reportagem ela afirma que parecia uma montanha-russa, pois as vezes por conta do trabalho clandestino de seus pais no mercado negro, muitas vezes eles tinham comida, porem nem sempre esse trabalho funcionava e por meses ela e a irmã mais velha Eun-mi passavam fome durante o gelado inverno de Hyesan, mas se você acha que nos momentos bons eles tinham bonança, esqueça, normalmente ela comia arroz e batata congelada, carnes, vegetais frescos e frutas são luxos destinados apenas a família de Kim e algumas famílias ligadas ao partido.
Eu escondi uma lâmina no cinto da minha jaqueta de tweed para que pudesse cortar  minha própria garganta antes que me mandassem de volta para a Coreia do Norte.
São anos até que Yeonmi entenda que deve fugir e essa possibilidade só é discutida quando Eun-mi  vai sozinha por conta própria em busca de sua liberdade, , a partir desse momento tudo acontece muito rápido, os acertos são feitos porem nada do que virar a seguir é revelado por aqueles que fazem o "arranjo", e após tomada a decisão a jovem Yeonmi de 13 anos viverá os piores momentos de sua vida para sobreviver, ajudar sua mãe, tentar achar sua irmã e se juntar novamente a seu pai que fica na Coreia do Norte.

Se esse fosse um livro de ficção eu ficaria bem mais tranquilo durante o período em que Yeonmi e sua mãe viveram na China, mas não é, tem partes que são inacreditáveis, foi impressionante a coragem que Yeonmi teve para escrever esse livro e contar os detalhes do submundo Chinês do tráfico humano, prostituição e o terror psicológico que isso acarreta, essa páginas são difíceis de ler mais a autora deixa claro que nada do que ela passa na China seria pior do que o que ela passaria na Coreia do Norte se fosse deportada.
Havia comerciais de coisas exóticas, como leite e biscoitos. Eu nunca bebi leite na Coreia do Norte! Nem sabia que vinha de uma vaca.
Passam meses, Yeonmi passam o diabo na mão de sequestradores, tem um relacionamento "complicado" com um chefe de tráfico humano, tem sua mãe vendida duas vezes, e ambas acabam indo trabalhar em um esquema de Chatroom erótico, onde incrivelmente Yeonmi conhece um Sul Coreano que se compadece com sua história e vai até a China para dar o dinheiro necessário para fazer a última parte da fuga, a ida a Coreia do Sul.


A fuga entre a China, passa pela Mongólia que tem um "acordo com a coreia do Sul para receber e acomodar os desertores vindos da Coreia do Norte, por mais perto que Yeonmi e sua mãe estivessem da Coreia do Sul, elas seguiram essa rota por ser a mais barata - embora mais fria e perigosa - já que a China tem um "acordo" com a Coreia do Norte para devolver esses desertores.

A terceira parte do livro se passa finalmente na Coreia do Sul, onde Yeonmi  e sua mãe passam por interrogatórios para provar que não são espiã, e depois por um centro de readequação construído especialmente para ajudar os Norte Coreanos a viver no mundo moderno - embora eu não tenha mencionado no início da resenha os cidadãos da Coreia do Norte, pelo menos sua maioria, não tem acesso a qualquer tecnologia a não ser a televisão que é bloqueado para passar apenas programas com propaganda política do governo - passo um período nesse centro vem a real readequação, agora o problema não é mais ser deportada e sim reaprender a viver sem medo do Grande Lider, então vem a tona as feridas é os medos que fizeram Yeonmi  continuar em frente em sua busca pela liberdade durante o período de fuga mas vieram a tona quando essa "liberdade é alcançada.

O livro é muito mais do que eu descrevi, não é fácil escrever uma resenha de um livro autobiográfico desse calibre, não é só dizer que a ditadura é terrível e que se solidariza com esse povo que tanto sofre, essa é uma história que precisa ser lida, sentida e compartilhada, e Yeonmi  fez isso, ao mesmo tempo em que cursava uma faculdade e lavava pratos em um restaurante, ela foi em busca de contar sua história, na televisão, pois sabia que só assim encontraria sua irmã que continuava perdida.

Eu recomendo esse livro e acredito que mesmo que não seja seu tipo de livro, seja interessante dar uma chance e conhecer a luta de uma pessoa em busca da liberdade que nos temos e desprezamos.


A young defector’s harrowing journey to freedom. 

Yeonmi Park, North Korean Human Rights Activist



Para Poder Viver
A jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade.
Yeonmi Park
Ano: 2016 / Páginas: 328
Idioma: português 
Editora: Companhia Das Letras
Nota ★ ★ ★