É como se aquele eu que dormia diariamente nĂ£o fosse eu, e que as lembranças daquela Ă©poca nĂ£o fosse minhas. "É assim que as pessoas mudam", penso. Mas as pessoas nĂ£o percebem essa mudança. NinguĂ©m as percebe. A nĂ£o ser eu. Mesmo que eu tente explicar, creio que elas nĂ£o vĂ£o entender, e tampouco farĂ£o esforço para tanto. Mesmo que acreditem, nĂ£o entenderĂ£o como me sinto, que Ă© o mais importante. Para elas sou uma pessoa que aterroriza o mundo racional.
Eu tenho um certo prazer em ler Murakami que Ă© diferente do prazer em ler um livro de qualquer outro autor, pois quado estou lendo Murakami sei que nĂ£o terminarei o livro com sentimento de que tenha lido uma histĂ³ria obvia, nunca falha, Sono Ă© uma das mais agradĂ¡veis surpresas que tive esse ano, pois por causa desse conto pude resolver um problema que tive em um outro conto do autor naquela coletĂ¢nea de contos "Homens sem Mulheres", quando escrevi sobre essa coletĂ¢nea falei que um dos contos poderia ser transformado em um livro pois sentia que faltava algo, mas Sono embora seja um conto em um livro especialmente ilustrado e cheio de detalhes tem um final bem desconcertante no ponto de vista de que vocĂª quer saber o que aconteceu, pois nĂ£o saber como tudo acaba Ă© pior do que saber, entĂ£o fiquei satisfeito pois alĂ©m me deixar chocado sem palavras, o autor da margem para que a histĂ³ria seja debatida.
O livro tem uma versĂ£o fĂsica linda, desde a capa atĂ© as ilustrações internas de Kat Menschik que sĂ£o tĂ£o surreais quanto a cabeça de Murakami deve ser ao tricotar suas histĂ³rias, eu li a versĂ£o Kindle que tem as ilustrações mas nem chega perto do livro fĂsico (sĂ£o esses os momentos que eu realmente penso se ter apenas versões dos livros em ebook foram uma boa escolha).
Eu nĂ£o tenho sono e minha consciĂªncia estĂ¡ lĂºcida e em pleno estado de vigĂlia. Arrisco dizer que ela estĂ¡ muito mais lĂºcida do que o normal. Meu corpo tambĂ©m nĂ£o apresenta nenhuma anomalia. Eu tenho apetite e nĂ£o me sinto cansada. Do ponto de vista prĂ¡tico, nĂ£o hĂ¡ nada de errado comigo, a nĂ£o ser o fato de nĂ£o dormir.
O livro conta a histĂ³ria de uma protagonista sem nome, casada com um dentista e com um filho adolescente, ela passa os dias em um rotina simplista, ela prepara o cafĂ©, para a famĂlia, arruma a casa, vai ao mercado, serve o almoço para o marido que trabalha perto de casa, depois tem a tarde para resolver seus problemas ou ir ao club nadar, todo dia essa rotina se repete, atĂ© o dia em que ela tem um episĂ³dio de paralisia do sono, quem jĂ¡ teve ou leu sobre esse assunto sabe o quanto um episĂ³dio de paralisia do sono pode ser aterrorizante, mas alĂ©m da paralisia ela alucina a figura de um velho com um regador de porcelana que encharca os pĂ©s dela, quando a paralisia acaba e ela realmente acorda ela estĂ¡ tĂ£o atormentada e assustada que decide trocar de roupa e andar um pouco pela casa para se acalmar ela toma um conhaque para aquecer, nesse momento tanto o marido quanto o filho estĂ£o em estado de sono pesado, a protagonista decide pegar um livro na estante para tentar pegar no sono novamente, ela escolhe Anna Karenina, eu confesso que nunca li (mas tenho um exemplar que irei ler ano que vem), ela escolheu o livro por ter centenas de pĂ¡ginas achando que seria enfadonho a ponto de ela dormir em minutos, muito pelo contrĂ¡rio, ela continua acordada a cada pĂ¡gina a histĂ³ria se torna mais interessante inclusive ela começa a anĂ¡lise a histĂ³ria do livro de forma que seu interesse pelos personagens vĂ£o aumentando e pela manhĂ£ ela jĂ¡ leu dezenas de pĂ¡ginas e seu interesse continua.
ApĂ³s esse dia fatĂdico a protagonista nĂ£o dorme mais, ela muda sua rotina para adapta-la a vida dupla, onde durante o dia ela realiza as tarefas no menor tempo possĂvel e passa o resto do dia lendo e relendo Anna Karenina, aos poucos ela começa a desprezar os "carinhos do marido" começa a relembrar dos momentos ruins que passou ao lado dele, começa a traçar paralelos que a fazem intuir que ele nĂ£o a protege mais e que ele Ă© bem parecido com a sogra e que provavelmente o filho serĂ¡ parecido com o pai o que a faz pensar que um dia detestarĂ¡ o filho assim como começou a detestar o marido (ela tem tanto tempo jĂ¡ que nĂ£o dorme que começa a pensar demais nas ações e com isso começa a desprezar as pessoas ao redor). Sinceramente quando Murakami descreve famĂlias e hĂ¡bitos dos japoneses Ă© preciso entender que aquela nĂ£o Ă© uma realidade e fato, pois sempre que ele descreve uma famĂlia a sensaĂ§Ă£o que tenho e que aquele povo Ă© infeliz, e eu espero que isso nĂ£o seja verdade.
A parte final do conto mostra as escapadas noturnas da protagonista, e o que essas escapadas resultam. Confesso que fiquei chocado quando lĂ a Ăºltima pĂ¡gina e precisei voltar e reler pois achei que tinha perdido alguma coisa, algo que tinha ficado oculto, engano meu ele fez novamente e acredito que dessa vez eu esteja vacinado e sempre que começar um novo livro do autor, seja ele conto ou romance, estarei preparado.
Sono
Haruki Murakami
Ano: 2015 / PĂ¡ginas: 120
Idioma: portuguĂªs
Editora: Objetiva
Nota ★ ★ ★ ★★
